RASCUNHOS SOBRE A IGREJA (2) - A (SUB)CULTURA EVANGÉLICA
Interessante é perceber que a igreja evangélica brasileira instituiu uma nova cultura, na verdade, uma (sub)cultura. Parece-me que o entendimento da igreja é se distanciar cada vez mais do mundo. O mundo é do diabo, segundo a igreja brasileira. A postura do crente dessa fé é abominar tudo aquilo que vem do mundo, até porque "o mundo jais do maligno".
Nessa jornada de abominar e demonizar todas as coisas, a igreja faz com que seus adeptos escutem músicas de Deus e não do mundo; faz com que vistam roupas de Deus e não do mundo; falem coisas de Deus e não do mundo; tenham amizades de Deus e não do mundo. Cria-se uma vida dividida, com departamentos sagrados e outros demonizados. O problema é que essa igreja acaba se tornando uma agência de pessoas doentes que em tudo tentam descobrir se o que fazem é de Deus ou do diabo.
A mentalidade da massa evangélica não consegue vislumbrar a vida como um todo integral e sim dividido, ou até mesmo, vivem em dualismos onde se culpam pelos atos do mundo que fazem. Infelizmente, a igreja evangélica brasileira está em falta com o que Jesus representa para o mundo de seu tempo. Sua vinda fora a (re)construção de uma nova espiritualidade, de uma nova mentalidade e de um novo óculos existencial reinterpretando tudo e todas as coisas.
Analisando o Cristo como esse grande intérprete podemos concluir que não existe mais o dia santo ou o dia do Senhor - todos os dias é dia do Senhor (Colossenses 2: 13-17); não existe mais pessoas exclusivamente santas - todas as pessoas podem ser santas (I Pedro 2: 9-10); não existe mais a casa do Senhor - todos nós somos a casa do Senhor através da presença do Cristo (Atos 7: 47-50); não existe mais o que é culto e o que não é culto - todos podemos cultuar ao Senhor em tudo o que fazemos (I Coríntios 10:31). A igreja evangélica brasileira não entende isso devido o medo que nutre de perder o poder religioso, que inclusive é sedutor.
Diante da leitura do Novo Testamento tendo como eixo central a pessoa do Cristo, não podemos simplesmente fazer vistas grossas a isso e continuar incentivando essa (sub)cultura evangélica que prega ao contrário do que nos está exposto em Cristo Jesus, nosso Senhor. A igreja evangélica precisa honrar esse novo que carrega; ser de fato essa boa notícia que Cristo traz às pessoas. A igreja evangélica brasileira precisa apresentar uma nova vivência de fé que liberta, transforma e aponta novos horizontes.
É quase patológico essa neura de achar que podemos ser cristão demonizando a própria produção de nossa cultura. Definir ritmos sagrados; roupas sagradas; amizades sagradas e tantas outras coisas não deve ser a atenção principal dessa igreja. Devemos priorizar pessoas, relacionamentos, e não apenas, o que essas pessoas devem ou não fazer, vestir ou falar, como se a moralidade se resumisse tão somente a isso.
A igreja evangélica com sua (sub)cultura não será o sal da terra e a luz do mundo, porque o próprio mundo não compreende essas neuroses e essas atitudes monásticas como diferença essencial e substancial para a transformação da realidade. Igreja não é sinônimo de moralidade, mas de singularidade. Não demonstraremos a importância da boa nova da igreja ditando ao mundo nossas regras morais, mas demonstrando ao mundo o quanto nos importamos com sua dignidade, saúde relacional e transformação real.
A igreja evangélica não encontrará êxito em sua caminhada sendo oposta àquilo que é produção cultural, divinizando apenas o que saí de nossos compositores e arraiais e mostrando o diabo que existe no mundo em que vivemos. Não existe música do mundo, mas simplesmente música, a boa música. Não existem pessoas do mundo, mas simplesmente pessoas criadas à imagem e semelhança de Deus. Não existem roupas do mundo, mas ocasiões para tudo e todas as coisas.
Precisamos ouvir e examinar todas as coisas. Precisamos abraçar e respeitar as pessoas. Precisamos nos vestir com um equilíbrio natural sem ofender a ninguém. Precisamos ser a resposta do amor de Deus às pessoas, a concreta demonstração de Sua graça a todos aqueles que convivem conosco trazendo sobre si as mesmas mágoas, taras e patologias que as nossas.
A minha oração é que a nossa subcultura não nos impeça de enxergar além da roupa, além da música que se escuta, além da carcaça que o ser humano apresenta a nós. O desejo do meu coração é que a igreja evangélica brasileira seja menos platônica e mais cristã, no sentido mais puro e próximo a Cristo do termo. Que os nossos conceitos não sejam únicos e absolutos, nas que aprendam com os conceitos da pessoa que se veste, ouve e pensa diferente de nós. Que não matemos pela nossa verdade, mas a demonstremos por relacionamentos de afeto, baseados não no padrão da (nossa) perfeição, mas no padrão do suficiente.
Que a igreja evangélica brasileira seja envolvida na cultura produzida pelo homem e (re)construa um espaço de diálogo e sobrevivência, demonizando não as pessoas, mas a própria estrutura religiosa. Que a igreja esteja atenta a isso a fim de repensar sua postura como farol do Reino de Deus.
Paz e Bem!
Diego Nunes de Araujo