1. INTRODUÇÃO
Antes de elucidar alguns traços importantes da biografia de Friedrich Wilhelm Nietzsche e também de apontar uma grande influência em sua filosofia, pretendo sinalizar a razão da presente monografia.
A partir de O Anticristo, fonte primária de nossa pesquisa, pretendo elucidar a decadência do moralismo cristão na filosofia de Nietzsche, uma vez que a presente obra faz parte de um processo de combate a cultura ocidental que está fundamentada sob as colunas da moralidade cristã.
O moralismo cristão não sofre críticas apenas no O Anticristo. Em Assim falou Zaratustra, o filósofo apresenta a idéia do eterno retorno, da pretensão de se sobrepor às fraquezas, àquilo que fora sempre considerado como fraco, como imoral e como pecado, já em O Crepúsculo dos ídolos, o filósofo ensina a filosofar com o martelo, apresentando a idéia de que a velha “verdade” chegou ao fim.
Gianni Vattimo em sua obra Introdução a Nietzsche expressa claramente o labor crítico nietzschiano no combate à moralidade cristã, razão do presente trabalho:
“tudo aquilo que se faz passar por alto e transcendente, em suma, aquilo a que chamamos valor, não é mais do que o produto, por sublimação, de factores “humanos, demasiado humanos”[…] O mundo da moral, quer como sistema de prescrições, quer como complexo de acções e de comportamentos inspirados em valores, quer como visão geral de mundo, é construído sobre 'erros'. Estes - não o esqueçamos, para compreendermos os resultados da análise 'química' nietzschiana - são precisamente aqueles erros que atribuíram riqueza e profundidade ao mundo e à existência do homem" (VATTIMO, 1900, p. 43).
1.1 ASPECTOS BIOGRÁFICOS DE NIETZSCHE.
Friedrich Wilhelm Nietzsche nasce no ano de 1844, no dia 15 de Outubro na cidade de Rocken. Seu pai se chamava Karl Ludwig que era pastor protestante, e sua mãe Franziska Oehler que era filha de pastor. Em 1864, matricula-se para estudar Teologia em Bonn. Torna-se membro do Seminário de História de Arte e da Associação Acadêmica Gustav-Adolf.
Nietzsche desenvolve também estudos em Filologia Clássica de Ritschl, razão pela qual a Universidade de Lípsia confere-lhe o título de doutor com base nos estudos por ele publicados em “Rheinisches Museum”. Um ano após o doutoramento, Nietzsche torna-se professor efetivo na Universidade de Basiléia.
No ano de 1889, o filósofo aponta graves sintomas de desequilíbrio mental, chegando a ter um diagnóstico médico indicando paralisia mental. Em 1892, Nietzsche piora em seu caso de saúde a ponto de não reconhecer mais seus amigos, e no de 1983 sofre de uma paralisia da espinha dorsal fazendo com que piorasse seu quadro clínico. Enfim, no dia 25 de agosto de 1987, sábado, o filósofo morre.
1.2 SHOPENHAUER E A SUA FILOSOFIA DA VONTADE
Shopenhauer como conhecemos é o filósofo da vontade, conhecido como voluntarista. É considerado o primeiro representante do voluntarismo no pensamento do século XIX, combinando combinava com seu pessimismo. O filósofo não restringe a vontade ao ato psicológico consciente. Não se pode entender a vontade apenas a partir da experiência psicológica que o homem tem de si mesmo como um ser conscientemente dono da vontade. A vontade surge no homem como vontade consciente, e nos animais como instinto e impulso.
Shopenhauer entendia que a vontade inconsciente nunca é realizada, fazendo com que o desejo à morte seja latente na vida do ser humano. Esta vontade inconsciente seriam os impulsos que, como aos animais são evidentes também aos seres humanos. O filósofo a chamava de impulso à morte em face da vontade não satisfeita. A vontade nunca alcança o desejado; eis um indicativo do seu pessimismo. A vida se torna uma incansável luta em direção à satisfação da vontade.
Nietzsche em seu pensamento exercita também a questão da vontade, no entanto, vontade de potência. A concepção de vontade em Nietzsche é à vontade como auto-afirmação do ser. A vontade para Nietzsche inaugura essa afirmação da própria existência individual.
Entendo que este esboço simplório do pensamento de Shopenhauer mostrando sua contribuição ao pensamento ocidental, faz com que tenhamos uma noção do que o próprio Nietzsche quer representar em seu pensamento crítico ao cristianismo como aqui identificaremos. Podemos dizer que a vontade é fundamental tanto para Nietzsche quanto para Schopenhauer.
2. A CRÍTICA DE NIETZSCHE À ÉTICA.
2.1 O QUE É FELICIDADE?
Nietzsche toca em um tema ético chamado felicidade. Nietzche começa sua crítica com uma pergunta provocativa:
“O que é felicidade? – A sensação de que o poder cresce, de que uma resistência é superada. Não o contentamento, porém mais poder; acima de tudo não a paz, mas a guerra; não a virtude, mas a excelência (virtude no estilo da Renascença, virtù, virtude sem moralina). Os fracos e os malogrados devem sucumbir: primeira tese de nosso amor à humanidade. E ainda devem ser ajudados nisso. O que é mais danoso do que qualquer vício? - A compaixão ativa por todos os malogrados e fracos - cristianismo…" (O Anticristo, 2014, p. 14).
O filósofo se opõe a esta concepção de felicidade como ele mesmo diz que tudo suporta e perdoa, no entanto, sua análise de felicidade está para além do entendimento pacífico, haja vista, que sua formação no sentido intelectual é grega:
“Essa tolerância e largeur de coração que tudo ‘perdoa' porque tudo ‘compreende', é siroco para nós. Antes viver no meio do gelo do que entre as virtudes modernas e outros ventos do sul!…”. (Idem, p. 13).
A lógica nietzschiana é inversa à do cristianismo, pois para ele, a felicidade está ligada a uma sensação que obtenho por sentir que o poder de fazer todas as coisas e conquistar todas as coisas cresce, desenvolve-se e torna-se uma resistência vencida.
O valor é inverso para o filósofo; a virtude é a guerra acima de tudo e não o sentimento pacífico. A virtude sem moralismo se torna a idéia máxima de Nietzsche, o que contraria um princípio do cristianismo onde a virtude é a piedade.
2.2 “VALEURS DE DÉCADENCE”.
A respeito de tais valores, de forma direta e pontual, Nietzsche afirma:
“O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, vil e malogrado, ele fez um ideal a partir da contradição aos instintos de conservação da vida forte; ele corrompeu a própria razão das naturezas mais fortes espiritualmente quando ensinou a sentir os valores supremos da espiritualidade como pecaminosos, enganadores, como tentações” (Idem, p. 17).
Através da negação do instinto, numa atitude de fuga à natureza humana, enaltecendo o ascetismo religioso e suas “três prescrições dietéticas perigosas: solidão, jejum e abstinência sexual” (Além do bem e do mal, § 47, p. 74), afastando-se da “vida” e conclamando a vitória dos fracos contra o “homem superior”, Nietzsche afirma, calcando sua premissas numa abordagem fisiológica, que o cristianismo condena o homem à degenerescência física e conseqüentemente psicológica. Sufocando a vontade de poder, o cristianismo, e toda a filosofia e prática afim a ele (os conceitos morais, os juízos de valor) conduzem ao domínio dos valeurs de décadence:
“Entendo a corrupção, já se percebe, no sentido de décadence: minha tese é a de que todos os valores em que a humanidade agora concentra a sua aspiração suprema são valores da décadence […] Considero a própria vida como instinto de crescimento, de duração, de acumulação de forças, como instinto para o poder: onde falta a vontade de poder, ocorre declínio. Minha tese é de que todos valores supremos da humanidade carecem dessa vontade - que sob os nomes mais sagrados há valores de declínio, valores niilistas no comando" (O Anticristo, 2014, p. 18).
Nietzsche na epígrafe acima não apenas aborda os valores de decadência, mas também os "valores niilistas”. O professor Oswaldo Giacoia Junior em Nietzsche, o humano como memória e como promessa aborda a complexa questão do niilismo:
"Não é o niilismo a causa da decadência cultural, antes pelo contrário: ele é o resultado necessário de um lento, até então insuspeitado, processo de decadência e perda de potência, pois na medida em que se aprofunda, são extraídas das consequências lógicas inexoráveis das pretensões sustentadas pelos valores axiais, cujo conteúdo se esvazia” (GIACOIA, 2014, p. 227).
A partir do niilismo, Nietzsche pretende negar os valores decadentes. A questão crucial não é negar a possibilidade de valores, isso seria um equívoco, todavia, é o que ele quer fazer com o niilismo. O filósofo tem em mente um sentido e um propósito para a vida, mas estes são imorais, isto é, em nada afinados com a moralidade cristã ocidental.
No niilismo nos deparamos com um processo de corrosão dos valores supremos, pois Nietzsche não trata o niilismo como um fato/evento, todavia, com um processo contínuo que se encontra em combate para o fim da legitimação dos valores metafísicos.
O niilismo nietzschiano é a metafísica perdendo a sua validade, no estado de corrosão. As ideais metafísicas se tornam valores de decadência, uma vez que giram em torno de se apostar em um outro mundo, em uma outra vida, em detrimento desta vida, deste mundo. Eis o grande combate do filósofo (SOUSA, 2014, p. 63).
2.3 A VERDADE EM NIETZSCHE.
A primeira vez que Nietzsche usa a palavra verdade foi no aforismo 8 do seu livro:
“O espírito puro é a pura mentira... Enquanto o sacerdote, esse negador, caluniador, envenenador da vida por ofício ainda for considerado uma espécie superior de homem, não haverá resposta à pergunta: o que é a verdade? Já se colocou a verdade de pernas para o ar quando o consciente advogado do nada e da negação é tido por representante da ‘verdade…’"(O Anticristo, 2014, p. 21).
Nietzsche considera a verdade como utilidade, ou seja, “verdadeiro em geral significa apenas o que é apropriado à conservação da humanidade. O que me faz perecer não é verdade para mim, é uma relação arbitrária e ilegítima do meu ser com as coisas externas” (ABBAGNANO, 2007, p. 1186).
A verdade é um tomar-por-verdadeiro. Esta idéia significa uma suposição poetizante de um horizonte da entidade, da unidade das categorias como esquemas. Essa suposição tem a sua ocorrência fundamental naquilo que o principio de não-contradição expressa: fixação que deve dizer efetivamente entidade. É o que entendo como verdadeiro, e não um entendimento de uma verdade inata, que surge como mágica, mas uma verdade que é tomada como verdade.
Nietzsche também relaciona o erro da busca pela verdade com a ilusão moral, que acusa de terem edificado um mundo apoiado entre a aparência e a verdade. E essa oposição entre a aparência e a verdade é fruto do dogmatismo platônico, que começa, segundo o filósofo, com Sócrates, responsável por semear a crença de que o conhecimento é capaz de penetrar conscientemente a essência das coisas, desprezando as aparências.
A verdade de Nietzsche perde seu valor e sentido moral. Podemos confirmar isso no texto da professora Viviane Mosé:
“A verdade é o centro da rede de valores que Nietzsche busca desautorizar em sua genealogia: não são as verdades que devem ser colocadas em questão, mas o próprio valor da verdade como já mencionamos. O alvo da transvaloração é permitir que os valores recuperem sua mobilidade, a partir da desautorização de toda e qualquer crença na verdade com princípio originário, como fundamento, como ser.” (MOSÉ, 2005, p. 71).
No Ecce Homo, o filósofo ressalta a sua idéia da transvaloração:
“Em uma transvaloração de todos os valores, em um desprender-se de todos os valores morais, em um dizer-sim e um ter-confiança em tudo que até hoje foi proibido, desprezado, amaldiçoado. Esse livro afirmativo jorra sua luz, seu amor, sua ternura sobre as coisas puramente ruins, ele volta a lhes devolver ‘a alma’, a consciência limpa, o direito altivo e o privilégio à existência. A moral não é atacada, ela apenas não é mais considerada... Este livro termina com um ‘Ou’? – ele é o único livro que termina com um ‘Ou’?...”. (Ecce Homo, 2006, p. 105).
Em toda filosofia nietzschiana não se encontra a verdade milenar que veio se propagando pelos séculos; sua proposta é a mudança, o combate, a transposição dos cárceres morais. Nietzsche coloca que os valores serão transportados quando se sobrepuserem aos seus fundamentos metafísicos e morais. A transvaloração é a vontade de poder, isto é, os valores transcendidos e ultrapassados terão seu fundamento abalado, dando lugar aos valores instintivos, aos valores que ultrapassam aquilo que é fraco, a anulação da vontade.
3. A CRÍTICA DE NIETZSCHE À TRADIÇÃO FILOSÓFICO-TEOLÓGICA.
3.1 CRÍTICA A KANT.
No tocante à crítica de Nietzsche à tradição filosófico-teológica, identificamos algumas críticas a Kant e, a posteriori, aos teólogos Lutero e Paulo, o apóstolo.
No que se refere à Kant, o filósofo aponta que “O êxito de Kant é meramente um êxito de teólogo; do mesmo modo que Lutero, que Leibniz, Kant foi mais um entrave à retidão alemã, já em si carente de firmeza” (O Anticristo, 2014, p. 23). Há toda uma tradição por trás do intuito da crítica do filósofo. E toda essa indignação é para dizer que a filosofia alemã se tornou em uma “indiciosa filosofia" (Idem).
Kant representa aqui a filosofia ocidental que para Nietzsche é a história da debilitação dos instintos. Desde Sócrates, o racionalismo conceitual relegou a natureza do homem – as verdadeiras raízes de sua consciência – a uma condição vergonhosa, enfim, o que o homem tem de melhor foi pela filosofia condenada ao ostracismo.
A proposta de Nietzsche é resgatar ao homem a sua natureza instintiva (Além do bem e do mal, 2015, p. 170), não no sentido de oposição e negação da razão simplesmente, mas de que o impulso instintivo é a raiz da consciência, e portanto anterior à razão. O dogmatismo da busca da verdade absoluta perde-se no vazio.
Nietzsche critica Kant a partir da sua moral:
“Uma palavra ainda contra Kant como moralista. Uma virtude precisa ser nossa invenção, nossa legítima defesa e necessidade mais pessoal: qualquer outro sentido ela é apenas um perigo. O que não é exigido pela nossa vida, a prejudica: uma virtude que se origine apenas de um sentimento de respeito diante do conceito de ‘virtude', conforme queria Kant, é prejudicial” (O Anticristo, 2014, p. 24).
É perigosa qualquer idéia e atitude que não contribua à vitalidade do ser humano, rejeitando a vontade de potência, sufocando os instintos a partir da moral e das virtudes além-mundo. Nietzsche advoga que não mais criem tipos humanos fracos, vingativos, que odeiam este mundo, esta vida, que são ressentidos com relação aos mais fortes, mas tipos que amem esta vida sem a necessidade de recorrerem a uma vida além-túmulo (SOUSA, 2014, p. 23).
Kant para Nietzsche é tudo aquilo que está em revolta com a natureza. Sua preservação dos instintos leva em conta a questão de que os mesmos são a mesma coisa que a natureza do ser humano. Qualquer filosofia contra esses instintos, é uma idéia contra a própria natureza do ser humano: “O instinto equivocado no todo e na parte, a antinatureza como instinto, a décadence alemã como filosofia – isso é Kant” (O Anticristo, 2014, p. 25).
3.2 CRÍTICA A LUTERO.
Sobre a crítica à tradição teológica, Nietzsche cita Lutero e Paulo. No aforismo 39 quando Nietzsche aborda a questão da história do cristianismo, ele começa dizendo que “Já a palavra 'cristianismo' é um mal entendido - no fundo, houve apenas um cristão, e esse morreu na cruz” (O Anticristo, 2014, p. 71). O que tratamos como evangelho, isto é, uma interpretação a respeito do Cristo é contrária à essência propriamente dita do que foi este “evangelho”.
Nietzsche tece sua crítica a Lutero, dizendo que este foi um elemento que fomentou esta concepção de Cristo, de fé, em crítica para a salvação, de boas novas de vida. Como inaugurador de uma teologia que protesta, Lutero não se revoltou com os postulados estabelecidos, razão pela qual, denuncia ao teólogo:
“A ‘fé’ sempre foi, por exemplo, em Lutero, por exemplo, apenas um manto, um pretexto, uma cortina atrás da qual os instintos representavam sua peça - uma cegueira esperta com relação ao domínio de certos instintos… A ‘fé’ – eu já a chamei de a verdadeira esperteza cristã -, sempre se falou de “fé”, sempre se agiu por instintos… No mundo das ideias do cristão não se encontra nada que sequer chegue a tocar a realidade: em compensação, reconhecemos no ódio instintivo a toda realidade o impulsor, o único elemento impulsor na raiz do cristianismo” (idem, p. 72).
Podemos claramente identificar que para Nietzsche, Lutero, sempre foi um aproveitador de tudo o que acontecia no cristianismo. Novamente o filósofo toca na questão do instinto de ódio ao real, relatando que “reconhecemos no ódio instintivo a toda realidade o impulsor, o único elemento impulsor na raiz do cristianismo”. A palavra instinto se torna em evidência novamente, no entanto, agora, Nietzsche quer informar que o ódio contra toda a realidade, que para ele é um erro, é um “elemento de poder” no cristianismo.
O instinto do ódio é inerente ao ser humano, quando então o cristianismo nega isso com seus postulados, dá inclusive lugar ao ódio, agindo logicamente pela natureza, pelo instinto, afirmando a realidade como ela é e não como pretende.
3.3 CRÍTICA A PAULO.
Chegamos à crítica de Nietzsche ao apóstolo Paulo, o filósofo cristão, reconhecido como o grande sistemático das doutrinas cristãs.
A crítica de Nietzsche ao teólogo é a respeito da sua concepção de Deus:
“O que nos distingue não é o fato de não encontrarmos nenhum deus na história, nem na natureza, nem atrás da natureza - mas que não consideramos ‘divino' aquilo que foi venerado como deus, e sim como deplorável, absurdo, danoso, não apenas como erro, mas como crime contra a vida… Nós negamos a Deus na condição de Deus… Caso nos provassem esse Deus dos cristãos, acreditaríamos nele menos ainda. - Em uma fórmula: deus, qualem Paulus creavit, dei nagatio” (O Anticristo, 2014, p. 88).
O Deus que Paulo cria é a negação de Deus para Nietzsche. A concepção de Paulo, a sua formulação da fé em Deus como ele cria sequer revela saúde e coerência com a lógica da terra.
Paulo para Nietzsche reduz a nada a sabedoria do mundo, contrapõe a lógica do mundo com sua formulação de fé, com sua forma de ver o mundo, a vida... Nietzsche chega a dizer que Paulo declara guerra com seus postulados teológicos aos filólogos e médicos da escola Alexandrina, pois na sua idéia de fé e na sua teologia se torna adversário de todo estudo que se resuma humano. Paulo descreve Deus. E sua descrição é verdade acima de todas as outras existentes inclusive de seus amigos Alexandrinos.
Paulo fora atrevido na sua formulação de Deus, colocando Deus num enquadramento teológico, tendo como pressuposto uma fé obediente por parte do cristão na revelação do seu Deus; eis o "deus que Paulo inventa”, denuncia Nietzsche (Idem).
A professora Scarlett Marton em Nietzsche, filósofo da suspeita, descreve perfeitamente a tensão entre Paulo, o cristianismo e a crítica nietzschiana:
“Criação do apóstolo, a religião cristã veio impor o reino dos fracos e dos oprimidos. Sobrepujando a aristocracia guerreira, os sacerdotes converteram a preeminência política em preeminência espiritual. Enquanto valor aristocrático, “bom"se identificava a nobre, belo, feliz; tornando-se valor religioso, passa a equivaler a pobre, miserável, sofredor, piedoso, necessitado, enfermo. Assim a transformação dos valores é fruto do ressentimento de homens fracos, que, não podendo lutar contra os mais fortes, deles tentaram vingar-se através desse artifício […] Se o autor de O Anticristo se dedica a criticá-la de forma radical, é antes de mais nada porque a vê como um sintoma de decadência dos impulsos vitais. Produto do ódio e desejo de vingança daqueles a quem não é dado reagir e só resta res-sentir, ela seria a expressão mesma da decadência” (MARTON, 2010, pp. 64, 65).
O cristianismo é um fenômeno distante da realidade, algo completamente não humano, as concepções de Paulo são na verdade uma anulação do próprio ser, da própria vontade, de se levantar contra tudo o que é fraco, isto é, contra aquilo que é proibido pelas grades da religião do cristianismo paulino.
Nietzsche descreve sobre a sua concepção cristã de Deus:
“A concepção cristã de Deus – Deus como Deus dos doentes, Deus que tece como aranha, Deus espírito – é uma das mais corruptas concepções de Deus a que sobe a terra se tem apresentado; representa até, possivelmente, o nível mais baixo da evolução declinante do tipo divino: Deus degenerado em contradição da vida em vez de ser a sua glorificação, e a sua eterna afirmação! Declarar guerra em nome de Deus à vida, à natureza, à vontade de viver! Deus, essa fórmula para todas as calúnias contra o “aqui e agora” e para todas as mentiras do ‘além’! O nada divinizado em Deus, a vontade de nada santificada!...” (O Anticristo, 2014, p. 35).
A crítica de Nietzsche atinge ainda a concepção de futuro que ela oferece. Para o filósofo são mentirosas as esperanças ditas cristãs. Além de não se importar com o “aqui e o agora”, a concepção cristã oferece a vida no “além” como conseqüência de se aceitar todas as suas formulações e postulados inventados. Para Nietzsche, devemos valorizar aquilo que afirma a nossa existência e não o que a anula.
4. A CRÍTICA DE NIETZSCHE AO CRISTIANISMO.
4.1 CRISTIANISMO COMO RELIGIÃO DA COMPAIXÃO.
Após tratarmos da concepção de Paulo a respeito de Deus, e de também identificarmos a crítica de Nietzsche a Paulo, veremos o que na verdade é o cerne da nossa pesquisa, que é a crítica de Nietzsche ao cristianismo, elucidando assim a sua decadência.
Dentre tantas críticas que Nietzsche tece ao cristianismo, a primeira é quando ele classifica o cristianismo como religião de compaixão:
“O cristianismo é chamado de religião da compaixão - A compaixão, se encontra em oposição aos afetos tônicos que elevam a energia da disposição para viver: ela tem efeito depressivo. Perde-se força quando se é compassivo” (O Anticristo, 2014, p. 19).
A compaixão para o filósofo é o pior dos sentimentos, pois enfraquecem as pulsões da vida. O homem perde seu poder quando é contaminado pelo sentimento de compaixão. A compaixão faz com que nos anulemos, nos enveredando pelos trilhos da inferioridade na relação com o outro. Excesso de afeto, perda de energia, ou seja, de potência.
A compaixão para o filósofo é contra a lei natural, a lei da evolução, dizendo que ela luta com os condenados na vida. E essa luta apenas acontece porque a piedade cristã é contra toda natureza dita humana e que verdadeiramente é respeitosa com a vida, com o verdadeiro sentimento humano, isto é, com o humano.
Nietzsche descreve que o cristianismo pretende dominar homens ferozes. A piedade cristã tenta domesticar homens e mulheres que são ferozes, necessitados de uma moral que os oriente para serem mais dóceis. Esta idéia de domínio dos homens pode ser identificada como segue:
“O cristianismo quer se tornar senhor dos animais de rapina; seu meio é adoecê-los - o enfraquecimento é a receita cristã para a domesticação, para a ‘civilização’. O budismo é uma religião para o fim e para o cansaço da civilização; o cristianismo nem sequer a encontra - em determinadas circunstâncias, funda-a” (Idem, p. 41).
Nietzsche acusa o cristianismo de ter a pretensão através da sua concepção de vida de domar os homens, dominá-los e fazê-los cativo pelo caminho das doutrinas cristãs. A idéia cristã é enfraquecedora porque domina os homens fazendo-os doentes.
A contaminação dos ideais cristãos fazem com que os homens se prostrem, sendo regidos por ideologias ultrajantes, impedindo a sua própria superação:
“O homem é uma coisa que deve ser superada; o homem há de ser uma ponte, e não um fim” (Assim Falava Zaratustra, 2011, p. 154).
Eis o pior de todos os sentimentos, a compaixão cristã; para Nietzsche a grande anulação da plena potência. Esta compaixão é a contraposição de tudo o que é forte, de tudo que é nobre, de tudo que nos afirma enquanto ser.
4.2 CRISTIANISMO COMO PARALISIA DA METADE DO CORPO.
Nietzsche tece outra crítica que seria a mais diferenciada de todas as outras. Nesta crítica, o filósofo usa um termo chamado “hemiplegia”, citando inclusive o protestantismo: “O pastor protestante é o avô da filosofia alemã, o próprio protestantismo é o seu peccatum originale. Definição de protestantismo: a hemiplegia do cristianismo - e da razão…" (O Anticristo, 2014, p. 23).
A concepção cristã da vida e de Deus; as práticas morais cristãs; a ética que imperava pela tradição do pensamento ocidental era para Nietzsche esta hemiplegia, pois não consegue realmente ser uma afirmação. Para o filósofo, a cultura é uma negação da vida na medida em que esta se fundamenta em silenciar os afetos, os instintos, a “natureza”. Contrariando o que é a cultura, Nietzsche aborda que é a desigualdade e a diferença que tornam a cultura possível, a desigualdade e a luta entre grupos de afetos. O pensamento precisa ser solidário aos afetos, não negá-lo mas afirmá-lo.
Nietzsche está dizendo que o cristianismo é paralisia porque o seu pensamento tem origem no mundo orgânico (MOSÉ, 2005, p. 206). Isto é, Nietzsche entende e considera o pensamento a partir da origem dos corpos; os corpos são as fontes de todo processo de identificação. Os movimentos, os gestos, são reflexos de um acontecimento intrínseco, interior.
Se os movimentos dos corpos são reflexos de um acontecimento interior e o cristianismo é a paralisia deste corpo, logo, o cristianismo é uma doença no interior do homem, onde através de idéias e dogmas fomenta o ódio a natureza humana, congelando o corpo, fazendo com que o mesmo seja incapaz de se auto-afirmar:
"Ódio contra o humano, mais ainda contra o animal, mais ainda contra o material, essa repulsa aos sentidos, à razão mesma, o medo da felicidade e da beleza, esse anseio por afastar-se de toda aparência, mudança, vir-a-ser, morte, desejo, anseio mesmo – tudo isso significa, ousemos compreendê-lo, uma vontade de nada, uma má-vontade contra a vida…” (A Genealogia da Moral, III, § 28).
Nietzsche diagnostica na moralidade cristã uma "calúnia" contra a realidade terrena, uma aversão a tudo que é "mundano", uma incapacidade de afirmação da existência em sua finitude, e esta tábua de valores anti-naturais não passaria de um "doentio moralismo que ensinou o homem a envergonhar-se de todos os seus instintos” (Idem).
O advento do cristianismo trouxe a idéia de sacrifício da submissão, com o pecado e a culpa, com o paradoxo do “deus morto” - “o crucificado” -, como identifica o próprio Nietzsche. O cristianismo é o grande contribuinte de uma verdade e uma moral que são ferramentas onde os fracos inventaram para submeter aos fortes, os grandes guerreiros.
4.3 CRISTIANISMO COMO RELIGIÃO DO IMAGINÁRIO.
O filósofo ainda relata que o cristianismo é a religião do imaginário, afirmando:
“No cristianismo, nem a moral nem a religião estão em contato com a realidade. Somente encontramos nele causas imaginárias (“Deus”, “alma”, “eu”, “espírito”, o “livre-arbítrio” ou também o “não-livre”); efeitos imaginários (“pecado”, “salvação”, “graça”, “castigo”, “remissão dos pecados”); uma relação entre criaturas imaginários (“Deus”, “espíritos”, “almas”); uma ciência natural imaginária (antropocentrismo, ausência do conceito de causa natural); uma psicologia imaginária (só erros sobre si próprio, interpretações de sentimentos gerais agradáveis ou desagradáveis, por exemplo, dos estados do nervus sympathicus, com o auxílio da linguagem figurada da idiossincrasia religioso-moral – “arrependimento”, “remorso”, “tentação do demônio”, “presença de Deus”); uma teleologia imaginária (“reino de Deus”, “o juízo final”, a “vida eterna”). - Esse puro mundo de ficções se distingue a seu desfavor do mundo dos sonhos pelo fato de que este reflete a realidade, enquanto ele a falsifica, desvaloriza, nega” (O Anticristo, 2014, p. 30).
Nesta crítica, podemos perceber que todo recurso teórico usado pelo cristianismo nos seus postulados são colocados à prova por Nietzsche. Sobre a sua idéia de Deus, Mosé explica:
“A idéia de Deus é o fundamento da linguagem metafísica, da razão. É a idéia de Deus como unidade, identidade e princípio de ação, que sustenta a racionalidade. É a idéia de identidade de Deus que fundamenta a identidade do sujeito além de todo o conceito. Causalidade, sujeito, verdade, resultam da crença no ser como entidade metafísica. O ser, a verdade, Deus, são apenas signos que adquiriram valor de verdade” (MOSÉ, 2005, p. 215).
O Deus da identidade é esse ser que o homem se identifica a ponto de ter uma concepção de unidade, união e junção com este homem. Esta unidade e identidade é produto da imaginação. A metafísica é o fundamento da idéia de Deus, onde suas causas, suas idéias, seus efeitos, sua ciência e teologia imaginárias não estão em nenhum momento para Nietzsche em contato com a realidade.
O Deus Cristão é um produto da imaginação que toma força de verdade, e ao mesmo tempo se coloca como a absoluta concepção endereçada a todos os humanos, no entanto, esse processo de se tornar absoluto uma idéia fez com que influenciasse toda a construção do pensamento ocidental.
Cristianismo para Nietzsche é uma espécie de psicologia imaginária que o filósofo resume em ficções. As ficções são os critérios para a formulação do pensamento cristão, em suma, são elas responsáveis em falsear, negar e desprezar toda a humanidade. O conceito de “natureza” fora posto em oposição ao conceito de Deus. Toda essa teologia imaginativa é uma declaração de ódio ao natural, ao que é o real. Por isso, Nietzsche se retrata ao cristianismo como decadência. O excesso do ideal cristão é para Nietzsche uma verdadeira decadência dos valores póstumos que anunciara.
5. CONCLUSÃO
Nietzsche discorre suas críticas às bases do moralismo cristão desde a ética no que diz respeito a felicidade, os valores de decadência e a verdade, chegando logicamente a toda tradição teológico-filosófica, tendo Paulo, Lutero e Kant como seus expoentes, sendo estes, os arautos do moralismo cristãos.
Apesar da sua herança teológico-religiosa, o filósofo produziu uma filosofia antagônica à visão do cristianismo, sobretudo, a partir da sua valorização da vontade de potência, afirmando categoricamente que forte e bom é aquilo que se torna o resultado da nossa vontade de poder, pois é a resposta aos instintos da terra, da natureza, do ser humano: “A vontade de poder é o sentido da vida, ela é a alternativa à falsificação dos valores, e como tal deve nos guiar à superação dos conceitos de moralidade e imoralidade” (Assim Falava Zaratustra, 2011, p. 171).
O que para Nietzsche é natural do ser humano, é obediência aos desejos instintivos, para o cristianismo é a tentação, é o mal, é aquilo que prejudica a vida enquanto projeto divino.
Em suma, Nietzsche é a negação de tudo o que foi escolhido como bom, como verdade, como alimento para vida. Sua filosofia é da terra, do chão, dos instintos, e não da piedade cristã que perdoa, ama e se compadece. Os valores irrefutáveis e metafísicos para toda tradição filosófica e teológica em Nietzsche são decadentes uma vez que enfraquecem as paixões vitais da vida.
BIBLIOGRAFIA
- VATTIMO, Gianni. Introdução a Nietzsche. Lisboa: Editorial Presença, 1990. Trad. António Guerreiro. 147 p.
- HEIDEGGER, Martin. Nietzsche I e II. Trad. Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2007. 894 p.
- MOSÉ, Viviane. Nietzsche e a grande política da linguagem. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. 237 p.
- SOUSA, Mauro Araujo de. Nietzsche: viver intensamente, tornar-se o que se é. São Paulo: Paulus, 2009. 126 p. Coleção Filosofia em Questão.
- MARTON, Scarlett. Nietzsche, filósofo da suspeita. Rio de Janeiro: Casa da Palavra e Casa do Saber, 2010. 126 p.
- GIACOIA JUNIOR, Oswaldo. Nietzsche: o humano como memória e como promessa. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
- NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Anticristo: maldição contra o cristianismo. Trad. Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2014. 128 p. Coleção L&PM Pocket, vol. 721.
- _________________________ Assim Falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Trad. Mario Ferreira dos Santos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011. 368 p.
- _________________________ A Gaia Ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. 344 p.
- _________________________ Genealogia da Moral: uma polêmica. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 176 p.
- _________________________ Ecce Homo: de como a gente se torna o que a gente é. Trad. Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM, 2006. 196 p. Coleção L&PM Pocket, vol. 301.
- _________________________ Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Trad. Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM, 2015. 144 p. Coleção L&PM Pocket, vol. 799.
- ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007. p. 1186.